spot_img
InícioDestaquesAluna de cursinho comunitário do DF tira 940 na redação do Enem

Aluna de cursinho comunitário do DF tira 940 na redação do Enem

“Era o meu sonho em jogo”, diz estudante que enfrentou luto e rotina de trabalho durante a preparação

Publicado em

- Publicidade -
- Publicidade - spot_imgspot_imgspot_imgspot_img
- Publicidade -

Enquanto muitos candidatos ainda tentavam dimensionar o peso da redação no Enem 2025, uma jovem de Ceilândia já transformava a própria rotina em argumento. Priscila Ribeiro, de 18 anos, alcançou 940 pontos no texto dissertativo do exame nacional e passou a integrar o grupo de estudantes com melhor desempenho na prova escrita deste ano.

O resultado chama atenção não apenas pela nota, mas pelo caminho percorrido até ela. Priscila conciliou a preparação para o Enem com o trabalho como cuidadora de idosos e frequentou, no período noturno, o cursinho comunitário do projeto Jovem de Expressão, onde teve acesso gratuito à formação pré-vestibular.

A trajetória até o dia da prova foi marcada por cansaço extremo e instabilidade emocional. Nos meses finais de preparação, perdas pessoais se acumularam e colocaram em risco a permanência da estudante no processo. A decisão de seguir adiante, segundo ela, não foi solitária.

Em meio ao esgotamento, o apoio da família e o vínculo construído dentro do cursinho foram determinantes para que Priscila não abandonasse o exame. “Eu não estava bem, pensei várias vezes em desistir. Mas o apoio que recebi ali foi fundamental para continuar”, relata.

No Enem 2025, cujo tema da redação abordou as perspectivas do envelhecimento na sociedade brasileira, Priscila construiu a argumentação a partir de referências culturais e experiências práticas. Um dos repertórios utilizados foi o filme O Estagiário, que retrata a reinserção de um idoso no mercado de trabalho. A vivência profissional como cuidadora também contribuiu para dar consistência ao texto.

A pontuação obtida tem impacto direto na disputa por vagas no ensino superior. No Sistema de Seleção Unificada (Sisu), a nota da redação é critério de desempate e pode definir a classificação final, especialmente em cursos de alta concorrência. É nesse cenário que Priscila pretende disputar uma vaga em Ciência da Computação, na Universidade de Brasília (UnB).

A dimensão simbólica da conquista ficou evidente no momento em que o resultado foi compartilhado em casa. Um vídeo divulgado nas redes sociais registra a reação da mãe ao descobrir a nota da filha, em uma cena marcada por emoção e alívio após um ano de incertezas.

Por trás do desempenho, há uma estratégia pedagógica que foge do modelo tradicional. A professora de redação Daniele Souza, que acompanhou Priscila ao longo do ano, afirma que o avanço não se explica apenas por técnica ou treino intensivo.

Segundo a educadora, o processo começa pelo reconhecimento da história de cada aluno como parte legítima do aprendizado. “A base é o acolhimento. A escrita melhora quando o estudante entende que a própria história também é conhecimento”, explica.

Daniele destaca que Priscila já demonstrava disciplina e facilidade com a escrita, mas evoluiu a partir do fortalecimento da autoconfiança e da ampliação do repertório sociocultural, construído por meio de debates sobre notícias, obras culturais e experiências do cotidiano.

A coordenadora pedagógica do projeto, Vitória Deolindo, afirma que essa lógica orienta o cursinho, que atende cerca de 100 jovens por ano e atua para ampliar o acesso ao ensino superior público. Para ela, o impacto vai além da aprovação individual.

“O Jovem é um espaço que possibilita, para além do desenvolvimento acadêmico, o pertencimento das juventudes ao território que ocupam, mostrando que podem construir, crescer e participar ativamente do desenvolvimento social e econômico de suas regiões”, afirma.

O cursinho integra o Programa Jovem de Expressão, realizado com apoio do Ministério da Cultura e do Instituto CNP Brasil, e se mantém a partir do trabalho contínuo de educadores populares que atuam no projeto há quase uma década.

Ao avaliar a própria trajetória, Priscila associa o resultado a um contexto coletivo. Para ela, a nota na redação carrega o peso simbólico de muitas histórias semelhantes à sua. “Quem vem da escola pública e da periferia enfrenta outra realidade. A gente trabalha, estuda com menos estrutura e, ainda assim, sonha. Essa nota mostra que é possível atravessar tudo isso e chegar.”

Últimas notícias

LEIA TAMBÉM