Se Brasília já viu de tudo e convenhamos, viu , ainda guarda espaço para certas obras que só a política produz. A mais recente atende pelo nome de “central digital dinâmica”, descrita por ex-colaboradores como uma espécie de sala de guerra eleitoral… que, veja só, funcionaria durante o expediente de uma agência pública.
Segundo a reportagem do Diário do Poder publicada na terça-feira (11), ex-integrantes de uma equipe coordenada dentro da Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial -ABDI, relatam o funcionamento de uma engrenagem digital voltada ao pré-candidato ao governo do Distrito Federal Ricardo Cappelli (PSB). Metas, manuais, celulares novos, notebooks e uma coreografia diária de interações que faria inveja a muito call center — tudo isso dentro de um prédio comercial, com uma organização que não se monta em dois dias, nem com improviso.
Até aí, você pensa: “Ok, pré-campanha é isso mesmo, muita gente fazendo de tudo um pouco.” Mas o enredo ganha corpo quando se lembra que Ricardo Cappelli não é só pré-candidato. É presidente de uma agência pública, com salário público, estrutura pública e deveres. Aí a fronteira entre “estratégia digital” e “operação paralela” deixa de ser um borrão e começa a cheirar a problema.
E problema com manual. O artigo 73 da Lei 9.504/97 veta o uso de bens e servidores públicos em campanha. Não é tipo um “talvez”, um “depende”, um “vamos interpretar”: é vedado. Ponto. A pena? Cassação de registro, inelegibilidade por oito anos, multa e, dependendo do caso, aquele selo do TSE carimbando abuso de poder político.
Na esfera administrativa, também não falta aviso amarelo piscando. Fazer campanha no horário de trabalho: proibido pela Lei 8.112/90. Receber salário sem exercer a função: improbidade administrativa. Retardar ou omitir atos de ofício para obter vantagem política: prevaricação.
Curioso ou não é que tudo isso parte de quem se apresenta como exemplo de eficiência, ética e “nova política”, um personagem sempre indignado nos vídeos que publica. E, vale lembrar, indignação seletiva: os alvos favoritos de Cappelli, nas suas cruzadas digitais, têm nome e endereço. Chamam-se Ibaneis Rocha e Celina Leão. É uma devoção: onde há uma brecha, há um ataque; onde há um dado, há uma insinuação; onde há uma pauta, há um dedo apontado.
É o estilo Cappelli: quando falta proposta, sobra agressividade.
E enquanto isso, lá no Edifício Ariston, segundo os relatos, circulavam instruções como “responder 70 comentários”, “fazer 30 ligações por WhatsApp”, “não errar português porque o Cappelli é jornalista” e “atenção aos horários de trabalho”. É sempre bonito quando a ética começa pela gramática.
Também há relatos de celulares e notebooks comprados só para abastecer a persona digital do pré-candidato. Vídeos distribuídos internamente para viralizar como se fossem espontâneos. E uma frase que diz muito mais do que pretende: “Quanto mais demonstrarem que estão prontos pra fazer as coisas à distância, mais fácil implementar um sistema dinâmico.” Dinâmico para quem?
Nos bastidores, ex-integrantes descrevem clima de medo, demissões sem aviso, atrasos de pagamento e uma sensação generalizada de que contrariar o chefe pode custar caro. Uma das frases ecoa: “O Cappelli é vingativo.” Brasília estaá conhecendo e o Maranhão que o diga .
E é nesse ambiente que surge a pergunta que realmente dói:
se isso é o que aparece antes da campanha, o que viria depois?
Não há resposta — ainda. O que há são fatos, leis e um padrão que se repete. Entre a estrutura pública que deveria ser institucional e a militância digital que parece eleitoral, quem perde mesmo é o limite. E, mais cedo ou mais tarde, quem brinca com ele acaba tropeçando.
No fim das contas, o Distrito Federal não precisa ser plateia de uma pré-campanha que trata truque como estratégia e atalho como virtude. Quando a disputa começa torta, não é o candidato que tropeça é a democracia que leva o tombo.




