Candidatos citaram projetos para saúde, transporte e educação, mas poucas ideias foram apresentadas com detalhes suficientes para que o eleitor pudesse entender como seriam executadas
O segundo debate entre os candidatos ao Governo do Distrito Federal terminou com muitos ataques , referências ao passado e críticas à atual administração, mas deixou uma pergunta importante para o eleitor: o que, de fato, cada candidato pretende fazer se chegar ao Palácio do Buriti?
Realizado nesta terça-feira (1º), pelo Correio Braziliense e pela TV Brasília, o encontro reuniu Celina Leão (PP), José Roberto Arruda (PSD), Leandro Grass (PT), Ricardo Cappelli (PSB), Paula Belmonte (PSDB) e Kiko Caputo (Novo). Durante quase duas horas, saúde, transporte, educação, BRB e gestão pública estiveram entre os principais assuntos.
Mas a dinâmica do debate acabou conduzindo boa parte da discussão para outro caminho. Em vez de uma apresentação detalhada de projetos, prevaleceu o embate sobre problemas da atual gestão e, sobretudo, sobre o legado do governo Ibaneis Rocha.
Para o eleitor que esperava sair do debate sabendo quais seriam as primeiras medidas de cada eventual governo, quanto elas custariam, de onde viriam os recursos e em quanto tempo poderiam ser colocadas em prática, a resposta ficou menos clara.
Ibaneis virou personagem central da disputa
A presença de Ibaneis no debate foi indireta, mas constante.
O ex-governador apareceu nas discussões sobre saúde, transporte e, principalmente, na tentativa dos adversários de vincular Celina Leão aos sete anos de gestão de Ibaneis Rocha.
O argumento é previsível do ponto de vista eleitoral. Celina precisa defender uma gestão que assumiu há poucos meses sem permitir que todos os problemas acumulados anteriormente sejam colocados em sua conta. Os adversários, por sua vez, têm interesse justamente no movimento contrário: associar a governadora à administração da qual fez parte para transformar a eleição em uma avaliação do ciclo iniciado por Ibaneis.
Em determinado momento, Arruda resumiu essa estratégia ao dizer que Ibaneis era o “piloto” e Celina, a “copiloto”. A governadora respondeu que as críticas eram políticas e não pessoais.
O problema é que, quando o debate se desloca excessivamente para quem é responsável pelo passado, sobra menos espaço para discutir quem tem condições de resolver os problemas do futuro.
E é justamente aí que o confronto deixou uma lacuna.
Não seria correto dizer que os candidatos não apresentaram propostas. Elas foram mencionadas em diferentes momentos.
Leandro Grass, por exemplo, defendeu a ampliação do transporte público, com expansão do metrô, implantação do VLT e ampliação dos horários de ônibus. Em educação, também apresentou o ensino integral como uma das prioridades de seu plano.
Kiko Caputo falou em ampliar o metrô, levar a linha até o Sol Nascente e Samambaia, criar novas Estradas Parque e utilizar o trem de Luziânia até a Rodoferroviária.
Na saúde, também surgiram propostas como o Fila Zero, defendido por Ricardo Cappelli, e a construção de quatro novos hospitais, mencionada por Kiko Caputo.
O ponto, portanto, não é a ausência absoluta de propostas. É a falta de profundidade na apresentação delas.
Em uma campanha eleitoral, dizer o que se pretende fazer é apenas o primeiro passo. O eleitor precisa saber como a medida será executada, qual será a prioridade, quanto poderá custar, qual será a fonte dos recursos e qual problema concreto ela pretende resolver.
Sem essas respostas, propostas diferentes podem acabar soando semelhantes.
A saúde talvez seja o melhor exemplo.
Todos sabem que a área está entre as principais preocupações do eleitor brasiliense. Filas, consultas, exames, cirurgias, atendimento hospitalar e funcionamento das UPAs são problemas conhecidos.
No debate, os candidatos exploraram justamente esse terreno.
A oposição utilizou as dificuldades da rede para atacar Celina, enquanto a governadora apresentou medidas adotadas por sua gestão. Arruda também entrou no confronto e criticou a situação dos hospitais públicos.
Mas o debate poderia ter avançado para questões mais objetivas.
Quantas cirurgias seriam realizadas por ano? Quantos profissionais seriam contratados? Quais unidades receberiam investimentos primeiro? Qual seria o modelo de gestão? Quanto custaria a expansão da rede? De onde sairia o dinheiro?
Essas perguntas são menos atraentes para um confronto eleitoral, mas provavelmente são as que mais interessam ao cidadão que está na fila.
Transporte virou disputa de narrativas
O mesmo ocorreu na mobilidade.
O transporte público foi um dos temas de maior confronto entre os candidatos. Arruda criticou a falta de expansão do metrô e Kiko apresentou projetos para novas ligações e corredores.
O eleitor precisa de mais do que uma lista de promessas
O debate cumpriu parte de sua função: colocou os candidatos frente a frente, permitiu ataques, respostas e comparações. Também trouxe propostas em áreas fundamentais para o Distrito Federal.
Mas o saldo deixa uma reflexão importante.
Debate eleitoral não deveria ser apenas uma disputa para descobrir quem consegue atacar melhor o adversário.
Também deveria servir para que o cidadão pudesse comparar projetos.
Quem pretende melhorar a saúde? Como?
Quem vai ampliar o metrô? Em quanto tempo?
Quem vai mudar o transporte público? Quanto vai custar?
Quem pretende melhorar a educação? Qual será a prioridade?
Quem vai gerar empregos e ampliar investimentos? Com quais instrumentos?
Quem promete reduzir despesas? Quais despesas serão cortadas?
Essas são perguntas que ajudam o eleitor a diferenciar discursos.
No confronto desta terça-feira, algumas respostas apareceram, mas muitas ficaram pelo caminho. A discussão sobre o governo Ibaneis e os problemas herdados ou atribuídos à Celina Leão ocupou um espaço considerável do debate.
E isso pode ser útil para a disputa política, mas não necessariamente para quem está diante da urna.
A eleição começa a exigir menos passado e mais futuro
A pouco mais de um mês do primeiro turno, a campanha entra justamente na fase em que os candidatos precisam transformar discurso em projeto.
Celina, por liderar as pesquisas, naturalmente continuará sendo o principal alvo dos adversários. A oposição tem interesse em fazer da eleição uma avaliação de sua gestão e em associá-la ao governo anterior.
E isso não se faz apenas apontando o que está errado.
A eleição, afinal, não é somente sobre o que o próximo governador encontrará ao assumir o cargo. É, principalmente, sobre o que ele fará depois de assumir.
No próximo debate, o eleitor poderia cobrar menos respostas sobre Ibaneis e mais respostas sobre o futuro. Menos “quem é o culpado?” e mais “qual é o plano?”.
Porque, no fim das contas, o cidadão não votará para escolher quem melhor descreve os problemas do Distrito Federal. Votará em quem acreditar que tem as melhores condições para resolvê-los.



