Tem gente que fala do Recanto das Emas. Carlos Dalvan fala do Recanto das Emas com o sotaque de quem mora lá. Não é figura de linguagem — ele realmente conhece o número da quadra onde a madeira do parquinho foi arrancada, sabe qual é o engarrafamento que o pai de família enfrenta todo dia na saída pela EPNB, conhece a feirante de idade que vai à barraca mais por lazer do que por renda.
Ficou evidente durante toda a sabatina desta manhã de quinta-feira(16), quando o ex-administrador e pré-candidato a deputado federal se sentou diante de cinco jornalistas e conversou — sem roteiro, sem assessor ao lado — por mais de uma hora.
Trabalhou como vendedor e garçom no Plano Piloto antes de encontrar na política o caminho para representar a comunidade que sempre foi a sua. Essa origem não é um dado biográfico que ele menciona de passagem é o núcleo da sua identidade política. “A gente que está aqui no dia a dia, que faz compras no mesmo mercado, que vai na mesma igreja, que joga bola no mesmo campo, tem um conhecimento maior de causa”.
“Quem calça o sapato é que sabe onde aperta. A diferença entre a Quadra 205 e a 310 é um mundaréu. Imagina do Recanto das Emas para Planaltina.”
Em 2019, Carlos Dalvan assumiu a administração regional do Recanto das Emas e o fez carregando nas costas tanto a legitimidade de ter sido o candidato mais votado da cidade na eleição que levou o governador Ibaneis ao poder quanto as expectativas de quem havia passado uma campanha inteira ouvindo as demandas dos moradores porta a porta.
Ao ser perguntado sobre o legado dos seus sete anos e quatro meses no cargo, apontou dois marcos que considera inegáveis: o viaduto do Recanto das Emas e o Hospital Regional, cuja obra ainda está em andamento, mas já se materializa diante dos olhos de quem passa pela cidade.
A questão das creches foi outro ponto de orgulho genuíno. Dalvan contou que, ao assumir, pediu imediatamente um levantamento do déficit de vagas — porque as reuniões de campanha haviam deixado claro que esse era um grito da cidade, especialmente das mães que trabalham por salário-mínimo e não conseguem pagar creche particular. Nos anos seguintes, o Recanto das Emas zeraria a fila de crianças fora das unidades públicas, com novos CEPIs inaugurados, parcerias com instituições e o Cartão Creche. “Quando a gente vê aquela notícia, sabe o que está por trás: é uma mãe que conseguiu trabalhar. É uma criança num lugar seguro, com cinco refeições por dia.”
No campo econômico, ele falou com satisfação visível da transformação do perfil comercial da cidade. Em 2019, não havia um único atacadão no Recanto das Emas. Hoje são cinco. Grandes marcas chegaram, a concorrência baixou preços, empregos foram gerados. O evento “Cidade Empreendedora”, realizado em 2019, foi o ponto de virada simbólico — um momento em que a administração decidiu ativamente comunicar ao mercado que aquela cidade valia o investimento. “A gente foi em reuniões, sentou em mesas, falou: o Recanto das Emas está crescendo, vale a pena investir. E as pessoas foram vindo.”
A história eleitoral de Dalvan tem dois capítulos antes deste terceiro que começa agora. No primeiro, disputou uma vaga na Câmara Legislativa do DF e ficou de fora. No segundo, em 2022, chegou perto: foi o candidato a deputado distrital mais votado do Recanto das Emas, com 16.227 votos, mesmo assim, não se elegeu.
A análise que fez da derrota, nesta manhã, foi de alguém que já processou o resultado com distância e honestidade: a escolha partidária pesou, a estrutura financeira faltou, e a experiência política que se adquire só com o tempo ainda estava sendo construída. “A política muda muito, é muito dinâmica. A eleição de 2022 para 2026 já vai ter mudanças.”
O que ficou daquele segundo capítulo, além das lições, foi um número que ele cita com clareza: em 85% dos partidos de Brasília, ele teria sido eleito. Não é uma queixa — é um dado que orienta a estratégia agora. A escolha pelo União Brasil para esta nova disputa, desta vez ao cargo de deputado federal, carrega o peso dessa análise.
A mudança de rota, do distrital ao federal, não foi impulsiva. Dalvan explicou que a experiência de sete anos como administrador regional lhe deu uma compreensão muito concreta de como Brasília.
O perfil que traçou de si mesmo para a Câmara Federal foi o de um “vereadorzão”. Falou em dar protagonismo à comunidade, em ouvir as ideias que ficam represadas por falta de quem as encaminhe, em criar uma frente parlamentar para discutir o custo de vida e os preços altos que pesam no cotidiano das famílias. Falou também em modernização da segurança pública — câmeras, drones, inteligência artificial — e em correr atrás de recursos federais para obras estruturantes, como o acesso à BR-060 que pode desafogar o trânsito da região.
“Vou disputar contra os tubarões, mesmo sabendo que sou uma piabinha. Mas uma piabinha que tem coragem de trabalhar — e acorda às seis e meia toda manhã.”
Quando a sabatina terminou, o que restou não foi a imagem de um político ensaiado tentando vender um produto. Restou a de um homem que conhece profundamente um lugar, que errou e aprendeu em público, e que ainda acredita que vale a pena tentar de novo. Desta vez, com mais bagagem. E, ao que parece, com um destino diferente em mente.




