O deputado federal do MDB/DF Rafael Prudente postou um vídeo. Tom grave, números na ponta da língua, ar de quem descobriu o incêndio. Falou em responsabilidade fiscal, em bilhões, em décadas de sacrifício para o funcionalismo. Perguntou, com a seriedade de um tribuno, quem vai pagar a conta do BRB.
Pergunta pertinente . Mas feita no timing errado, no partido errado,porém na semana mais conveniente possível.
Porque três dias antes desse vídeo,o deputado estava ocupado com outra coisa. Ele assinou, junto com os deputados distritais Hermeto, Iolando, Jaqueline Silva e Daniel Donizet, uma carta endereçada a Baleia Rossi, presidente nacional do MDB. O pedido era simples e cirúrgico: intervir no diretório do DF para tirar Wellington Luiz do comando do partido. O mesmo Wellington Luiz que, não por acaso, é o único dirigente do MDB local que defende apoio à reeleição de Celina Leão.
Aí o vídeo sobre o BRB começa a fazer mais sentido,que a sociedade num primeiro momento enxerga.
Na política, nenhum movimento é involuntário. E quando um deputado assina uma carta para destituir o presidente do partido numa segunda e grava um pronunciamento fiscal dias depois , ele não está exercendo fiscalização. Está construindo narrativa. E narrativa, nesse contexto, tem endereço certo: o Palácio do Buriti, onde governa a mulher que ousou dizer que “sucessão não é submissão”.
O vídeo é sobre o BRB. A conta, na verdade, é sobre 2026.
A carta ao presidente Baleia Rossi deixa isso escancarado. No documento, os parlamentares citam o “distanciamento político” entre Ibaneis e Celina, afirmam que o quadro piorou depois que a governadora delimitou campo político próprio e foi em frente com sua aliança de 12 partidos para a reeleição. Traduzindo do político para o português: Celina não obedece Ibaneis. E isso, para essa ala do MDB, é inadmissível. O plano está na mesa — o MDB quer lançar candidatura própria ao governo do DF, e o n do grupo é o próprio Prudente. Para isso, Wellington Luiz precisa sair do comando do partido. E para isso, a narrativa contra Celina precisa ser alimentada.
O BRB entrou em cena na hora certa.
O problema é que o roteiro tem um furo enorme. O rombo que Prudente quer que a população associe à atual gestão foi produzido na gestão anterior — a do MDB, a de Ibaneis Rocha, o mesmo ex-governador que hoje puxa a fila do rompimento com Celina Leão. Foram mais de 12 bilhões em operações suspeitas com o Banco Master, investigadas pela Polícia Federal, realizadas enquanto o MDB controlava o Palácio do Buriti. Celina não criou o buraco. Ela herdou o buraco e está sendo cobrada por ele.
Prudente pergunta quem vai pagar a conta. Pergunta legítima. Mas existe uma pergunta anterior, bem mais incômoda, que o deputado desvia com maestria: quem fez essa conta? Quem estava no comando quando as decisões que geraram o rombo foram tomadas? O silêncio sobre esse capítulo é eloquente demais para ser coincidência.
No vídeo, Prudente diz que não está ali para atacar pessoas. A frase funciona como escudo: ao mesmo tempo em que nega o ataque, o executa. Na prática a traição política raramente vem com o nome da vítima estampado. Vem embrulhado em dúvida, em interrogação, em “perguntas que precisam ser feitas” — sem nunca responder a pergunta mais importante.
A destinatária de todas essas perguntas sem resposta tem endereço. E o calendário do atacante tem data.
Celina Leão pode e deve ser fiscalizada. Esse é o papel legítimo de qualquer parlamentar. Mas fiscalizar exige contar a história inteira — inclusive o capítulo em que o próprio partido do fiscal está no centro do problema. O que Prudente entrega é meia história com perguntas selecionadas a dedo, produzida na mesma semana em que ele pede a cabeça do único dirigente do MDB que não embarcou no projeto de rifar a governadora.
O BRB é o pano de fundo. O palco é 2026.



